segunda-feira, 1 de abril de 2019

Panela de Pressão

Panela de pressão. Suportando a ira cá dentro. Sentindo o sangue borbulhar. O suor pingando e escorrendo pelo rosto diante de tanta quentura. Prestes a explodir, a se render. Chegou num ambiente em que está só. Os olhares de compreensão já não os são mais. Cansaram. Agora gozam dela. Acham que essa panela é velha demais pra pegar pressão. Que essa panela traz mais enxame do que força de vontade. A panela apenas se entrega. Apenas se deixa vencer. E enquanto acreditam que ela está velha demais para pegar pressão, deixam-na no fogo, sem preocupar-se com o tempo. E então ela vai suportando calada a pressão de ser uma panela de pressão. Até que o     tempo passa e chega ao seu limite.   Buuumm!

domingo, 23 de setembro de 2018

Um bicho me mordeu

Rebelde sem causa
Tristeza sem motivo
Como posso sentir isso?
Tá tudo bem, tudo normal
Mas as vezes um bicho me morde
E fico mal.

Do nada me sinto virada
Do avesso e amassada
Como um pano maltrapilho
E sem motivo me pergunto
Por quê diacho me sinto assim?

Olho o mundo a minha volta
Erguida pelas pontas dos pés
Tentando olhar o mais distante  
Percebo que meu umbigo
É um ponto tão minúsculo
Que desaparece na multidão.

E de tão pequena e fugaz
Que é  minha existência
Em comparação ao universo
Me desapareço em meio 
Ao meu completo caos.

Devastação

Devastação
É o que se expande
Se espalha e se dilacera
Em minha pele.  

De repete
Sinto um breu
Meus olhos taciturnos
Pairam sobre a distorção.
                                              
Estes olhos ardem
Com a acidez do ar
E a água devastada em mim
Transborda ao ar livre.

Vaza feito torneira quebrada 
De pingo em pingo
Até que de repente tudo se aquieta
E o silêncio se faz rei.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Anônima melancolia


Sabe quando algo desconhecido te atinge por dentro? Como um resfriado que chega sem avisar, que transpassa no ar, invisível. Pois bem, nesse instante um sopro de sentimento anônimo me atingiu em cheio, enquanto apenas andava por aí. O sopro foi inspirado e se instalou em meu peito, se alojou no espaço empoeirado que só fez espalhar mais poeira. Dimanam por meus olhos e escorrem por minha face: o sopro misturado com poeira. Reconheço a causa da tragédia, mas desconheço o motivo. No entanto, presumo que a poeira se fez por longos anos em carne viva, até quase entupir as veias coronárias. E no peito a poeira se multiplica e se aglomera, calcifica. O sangue já não é tão vermelho, tem a cor estranha, “fubenta” pelo tom cinza do pó. Mas está dentro da veia e camuflado pela pele alva. E por fora é tudo normal, quase não parece um pré-infarto.

Cá estou

No fim das contas, nunca abandonei por completo a mania de escrever. Sumo por dias, semanas, meses, mas volto. Como cá estou, jogando palavras ao vento sem pretensão de serem lidas. Talvez seja um ritual que persiste por muitos anos, afinal, deu-se início aos 12 anos de idade, ainda tentando compreender a diferença da sonoridade do T e D. Por vezes retorno a me ler, a rever meus pensamentos, as ideias sem nexo, as opiniões que desfiz, aos esdrúxulos erros de português que até hoje tenho preguiça de corrigir, e aos meus próprios desencontros. Noto todos os contornos, linhas, expressões que expus, sempre com bastante intensidade, de quem segura o lápis em folha com tamanha força que quebra a ponta. Pois nos textos remei até à extremidade da minha alma, imersa num mundo abstrato, interior, alheia aos olhares de terceiros e ao mundo concreto. Escrevo, como alguém que está prestes a cair pela janela, segurando-se no rodapé, momento efêmero em que finjo ser escritora e não mais uma pessoa de vida medíocre, cotidiana, metódica.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Eu sou tu

Como eu queria desenhar aquele teu sorriso estampado no rosto barbudo, os olhos comprimidos pelas bochechas vermelhas, sorriso incontrolável e de perfeita simetria, num dia de domingo a tarde. Como eu queria guardar o sentimento que senti ao te ver, embrulhado numa caixa de recordações. Ou melhor, mantê-lo vivo e dançante no peito. Como queria poder rever aquele sorriso sempre que precisasse, que a solidão tentasse se instalar, ou que uma novidade boa chegasse, ou simplesmente para reviver a nostalgia do momento. Porque és o amor que quero viver eternamente. É em ti que meu amor se renova e se firma mais bonito. Porque todos te enxergam em mim, como uma árvore de longas   raízes. Porque tu sou eu, e eu sou tu. 

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Amor com gosto de fruta mordida


O amor no seu viés pragmático, sem as pinceladas do romantismo do século XX. O amor como uma construção de um objeto comum entre duas pessoas, sem uma perspectiva futurística de ideais, como casamentos, casa e filhos. O amor que pensa no que é agora, mas sem pestanejar sobre o amanhã, o qual pode ser nós, ou apenas eu e tu. O amor sem delimitação de prazo, onde o “eterno” perpassa o domínio, feito areia que escorre pelos dedos da mão. O amor que foge das amarras juvenis, dos relampejos fumegantes do mundo excêntrico dos amantes. O amor que tem gosto de fruta mordida, que já se sabe do gosto e textura que o carrega, que não se engana pela beleza do desconhecido. Amor que lateja e percorre um caminho já conhecido ou presumido. O amor que sabe quando ficar e quando ir, caso assim queira simplesmente partir. O amor que não se prende em ameaças ou promessas, em meras suposições. O amor que apenas é e vive, em sua pura essência de ser.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Translúcida

Translúcida, prestes a desaparecer. Vendo sem enxergar, quase um vulto. Perdendo o contato com o outro lado da linha. Ainda consegue me enxergar? Uma vez já conseguiu? Agora sou um quase nada. E agora já fui alguma coisa pra você. Status: transparente.

Permanecer

Meu querido. Ou melhor, querido.
Sem nenhum pronome possessivo.
Livre como deve ser.
Sem nenhuma pressa e sem certezas.
Seguindo o próprio ritmo do amor.
Sem pretensões, sem planos.
Apenas com a sensação plena de querer ficar.
Querido, sujeito maduro de barba e sabedoria.
Como pode meu Senhor existir coisa assim neste mundo?
Nem em meus melhores sonhos, quase utópicos, acreditei existir um ser igual.
Hoje, nesta realidade em que me encontro, meu único desejo é:
Permanecer.

Copo de vidro

Fragilidade. Feito um copo de vidro arranhado. Prestes a ferir e a quebrar. Com medo de derramar-se em fagulhas, precisa ferir, ameaçar, manter distância. Tudo como meio de manter-se estável, arranhado, mas em pé. O sangue que escorre da boca daquele que se sacia, mancha o corpo daquele que está prestes a quebrar. Penetra no arranhão já escancarado a olho nu, ande, dói. E o copo tenta medir qual a dor que dói mais: a de sentir o arranhão absorver o sangue amargo ou a de quebrar-se ao meio.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Até quando?



O fim, palavra que soava tão distante e disforme, quase fictícia entre nós. Hoje parece palpável, próxima, como uma roupa que me cabe bem. Como em pouco tempo o eterno se desfaz em “até quando?”. O tempo variando de infinito a ínfimo. As palmas que se entrelaçavam se desfrouxam, apoiam uma à outra como se fosse um peso morto. O que era pra ser uma explosão de cólera se desmancha em nada. Vazio que lateja cá dentro, sem um pingo de água que reste para lacrimejar. Vazio, seco, breu. Isto que cá ficou, já me era esperado. Como a carta de um conhecido que diz “até breve”. Sabia eu do buraco que havia em mim que deixava escorrer de pingo em pingo. Hoje sou a própria cratera. Sou o medo que sentia do futuro “fim”. A bomba relógio que estourou – “bruuum!”.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Desalento

Meu coração parece uma bomba preste a explodir. meus olhos cachoeira. minha mente um turbilhão. e nesse momento é tudo muito frágil. Estou só com meus medos. cara a cara. sem interferência alguma. Por que a noite é sempre muito longa. E o amanhecer é num piscar de olhos e latejar de cabeça. Tudo dói, uma noite mal dormida, uma alma em desalento e um peito escancarado. Volto os meus olhos ao relógio. Sei que dormir é necessário e o tempo está ao meu desfavor. Cubro-me de pés a cabeça, encolhida em meu corpo cansado, na esperança de escontrar abrigo.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Logo após o "boa noite"

Você a essa hora já foi dormir e ficou um vazio aqui. É que minhas horas já estão acostumadas a sua companhia. Tá, não é que eu dependa de você ou que me sinta um ser incompleto, mas é que você já virou parte da minha rotina. E pra dizer a verdade, com você qualquer rotina é bem vinda.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Eu te ofereço...

Eu te ofereço meu primeiro e último pensamento do dia. Eu te ofereço meu primeiro bom dia, acompanhado por um nome carinho. Eu te ofereço minhas mais sinceras palavras escritas em prosa e poesia. Eu te ofereço todos os traços e rabiscos à lápis no papel. Eu te ofereço as notas mais desafinadas do meu violão velho.  Eu te ofereço meu livro favorito “o morro dos ventos uivantes”. Eu te ofereço todos os tons de aquarela. Eu te ofereço as minhas melhores tentativas. Também te ofereço meu ombro amigo, meu olhar cúmplice. Eu te ofereço o que há de mais belo e mais simples na vida. Eu te ofereço o que houver de novo, e o de velho. Eu te ofereço um coração cansado, mas que não perde a esperança. Eu te ofereço o que fui, o que sou e o que serei.

Espero carinhosamente que aceite, mas não tenha pressa, é que o amor chega de mansinho quando menos se espera.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Lei da reciprocidade

Eu comecei com a regra do recíproco, mas vi que a vida não deve ser sempre assim. Quanto amor eu dava, tanto amor esperava receber. Até que meu namorado entrou no embalo. O problema foi quando nos desentendemos, o que é normal em qualquer relacionamento. E o que fiz de errado, dei espaço para que a lei da reciprocidade fosse aplicada, ou seja, o mesmo erro ele poderia fazer sem culpa. E qual seria a próxima reação? Seria um jogo infinito de farpas. Ambos armados de forma igualitária, não haveria injustiças no amor. Mas qual amor se sustenta com farpas? A reciprocidade como um tiro pela culatra. Não precisou que o episódio se repetisse para que eu percebesse que a lei da reciprocidade não sustenta o amor. Mais do que entregar o que recebemos, é preciso fazer o melhor do que nos é dado. Nada por igual. Sem bate-e-volta. Sem munições. Sei que tenho muitas falhas, farpas e um jeito por vezes marrento, de antemão, já te peço desculpas, mas também peço que não me trate de forma igualitária, recíproca, principalmente quando errar. Quando fazemos o bem a alguém, mesmo que este não mereça, o bem retorna de alguma forma, infinitamente maior. É que o amor tem que ser altruísta, sem que se perca o amor próprio.

Nossas diferenças

Meu bem, não o quero por nossas semelhanças. Não espero que nossas ideias ou gostos sejam iguais. Eu gosto de ler, você de pescar. Eu gosto de verde e azul, você de vermelho e preto, que combinam com seu time de futebol. Eu não gosto de esporte. Você não lê muitos livros.  Você se entrega aos bons ventos, eu desconfio deles. Eu questiono o porquê existimos, você prefere que nem tudo tenha uma resposta. Eu vou no que é profundo,   você me traz à praticidade. Mas sabe de uma coisa? Respeito-o ainda mais por nossas diferenças, pois pessoas iguais nos deixam estáticos. Então prefiro buscar pela diferença que me torne uma pessoa melhor.

domingo, 5 de julho de 2015

Óculos


O mundo estava um borrão colorido. Um lindo borrão de luzes. As linhas em paralelo se cruzavam e se perdiam entre si. As marcas e as assimetrias nos rostos alheios simplesmente desapareciam com o desfoco da pupila. Os óculos estavam guardados na bolsa, por quê? Por que eu queria ver o mundo sob uma nova perspectiva, menos material. Uma verdade em que construo por outras percepções melhores do que a visão. O mundo agora em parte era o que eu conseguia enxergar, e por outra, o que eu podia imaginar ser. As pessoas nunca me foram tão misteriosamente encantadoras. Eram corpos que se balançavam em perfeita harmonia com as cores e sons, como num quadro abstrato. E essa era a pintura que só eu podia enxergar.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Você me tem

Nunca me senti tão acolhida em braços serenos e nem tão livre quanto um pássaro. Nunca me senti tão de alguém e tão sem dono. É que você me tem, não em suas mãos, mas em teu corpo. Cada poro de minha pele, cada fio do meu cabelo, de extremidade à extremidade. Me tem alinhado em tua vértebra como sendo dois corpos em harmonia. Tem meu pulsar, meu latejar e meu suor. Tem minha permissão, meu sim e o meu não. Me tem da forma mais ampla e restrita que existe. Me tem como nunca haverá de ter. Me tem  em total imensidão do tempo ou em ínfimos segundos, mas agora, mais do que nunca, me tem por inteira, despida de qualquer pudor.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Prisma

Eu ando e vejo seu nome escrito nas paredes. Eu leio livros e o encontro nos personagens. Eu reviro meu lençol e você se enconde debaixo do meu travesseiro. Surge e ressurge feito cada raio de sol que penetra pelas brechas de minha janela. Moço, eu já não sei quantas sou e nem quantos mundos inexploráveis há em mim, mas se você me olha de perto, me tem sobre seus braços, sinto que é possivel me descobrir.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O que eu gosto em você

Gosto quando simplesmente paira seus olhos sobre mim e sorri tão bobo, enquanto tento não me sujar com o sanduíche em mãos. Quando parte do seu rosto está sob penumbra, olha fixamente para mim, enquanto pergunto “o que foi?”, e com um sorriso largo me responde “nada, apenas gosto de olhar para você”. É que seus olhos escuros parecem enxergar além de mim, como se capturassem cada fração do que eu guardo internamente, escondido e camuflado sob o meu batom vermelho.

Gosto de passar as mãos sobre sua barba, fazê-lo lembrar da sua infância. Gosto de senti-la passando suavemente sobre meu rosto, como dois felinos que se farejam numa noite fria e silenciosa. Gosto do seu beijo, que me chega como alento. É seu sabor, textura e temperatura. Me envolve e transborda, como água em ebulição. Saliva, língua e mordidas. É o encaixe perfeito. E se essa conversa de química existe mesmo; a nossa é, sem dúvidas, a orgânica.

Gosto quando consegue me ler, em todos os sentidos. De ter sua mão sobre a minha, enquanto faz carinho nela. Também acho incrível a forma em que surge quando mais preciso, quando o quarto em silêncio fica vazio demais e me sufoca. É quando seu abraço me acolhe e sua voz em tom sereno me tranquiliza, restituindo toda a minha calma.

Gosto de ouvir baixinho em meu ouvido o quanto valeu a pena ter me conhecido, enquanto penso comigo mesma o quanto estou feliz por ele ter surgido repentinamente em minha vida. Logo após, olho para o relógio, esperançosa para dar meia-noite e ser a primeira a deseja-lhe um feliz aniversário, sabendo eu que dessa vez quem ganhou o melhor presente foi eu.

Ayllane Fulco.