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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Eu te ofereço...

Eu te ofereço meu primeiro e último pensamento do dia. Eu te ofereço meu primeiro bom dia, acompanhado por um nome carinho. Eu te ofereço minhas mais sinceras palavras escritas em prosa e poesia. Eu te ofereço todos os traços e rabiscos à lápis no papel. Eu te ofereço as notas mais desafinadas do meu violão velho.  Eu te ofereço meu livro favorito “o morro dos ventos uivantes”. Eu te ofereço todos os tons de aquarela. Eu te ofereço as minhas melhores tentativas. Também te ofereço meu ombro amigo, meu olhar cúmplice. Eu te ofereço o que há de mais belo e mais simples na vida. Eu te ofereço o que houver de novo, e o de velho. Eu te ofereço um coração cansado, mas que não perde a esperança. Eu te ofereço o que fui, o que sou e o que serei.

Espero carinhosamente que aceite, mas não tenha pressa, é que o amor chega de mansinho quando menos se espera.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Lei da reciprocidade

Eu comecei com a regra do recíproco, mas vi que a vida não deve ser sempre assim. Quanto amor eu dava, tanto amor esperava receber. Até que meu namorado entrou no embalo. O problema foi quando nos desentendemos, o que é normal em qualquer relacionamento. E o que fiz de errado, dei espaço para que a lei da reciprocidade fosse aplicada, ou seja, o mesmo erro ele poderia fazer sem culpa. E qual seria a próxima reação? Seria um jogo infinito de farpas. Ambos armados de forma igualitária, não haveria injustiças no amor. Mas qual amor se sustenta com farpas? A reciprocidade como um tiro pela culatra. Não precisou que o episódio se repetisse para que eu percebesse que a lei da reciprocidade não sustenta o amor. Mais do que entregar o que recebemos, é preciso fazer o melhor do que nos é dado. Nada por igual. Sem bate-e-volta. Sem munições. Sei que tenho muitas falhas, farpas e um jeito por vezes marrento, de antemão, já te peço desculpas, mas também peço que não me trate de forma igualitária, recíproca, principalmente quando errar. Quando fazemos o bem a alguém, mesmo que este não mereça, o bem retorna de alguma forma, infinitamente maior. É que o amor tem que ser altruísta, sem que se perca o amor próprio.

domingo, 5 de julho de 2015

Óculos


O mundo estava um borrão colorido. Um lindo borrão de luzes. As linhas em paralelo se cruzavam e se perdiam entre si. As marcas e as assimetrias nos rostos alheios simplesmente desapareciam com o desfoco da pupila. Os óculos estavam guardados na bolsa, por quê? Por que eu queria ver o mundo sob uma nova perspectiva, menos material. Uma verdade em que construo por outras percepções melhores do que a visão. O mundo agora em parte era o que eu conseguia enxergar, e por outra, o que eu podia imaginar ser. As pessoas nunca me foram tão misteriosamente encantadoras. Eram corpos que se balançavam em perfeita harmonia com as cores e sons, como num quadro abstrato. E essa era a pintura que só eu podia enxergar.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Você me tem

Nunca me senti tão acolhida em braços serenos e nem tão livre quanto um pássaro. Nunca me senti tão de alguém e tão sem dono. É que você me tem, não em suas mãos, mas em teu corpo. Cada poro de minha pele, cada fio do meu cabelo, de extremidade à extremidade. Me tem alinhado em tua vértebra como sendo dois corpos em harmonia. Tem meu pulsar, meu latejar e meu suor. Tem minha permissão, meu sim e o meu não. Me tem da forma mais ampla e restrita que existe. Me tem como nunca haverá de ter. Me tem  em total imensidão do tempo ou em ínfimos segundos, mas agora, mais do que nunca, me tem por inteira, despida de qualquer pudor.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O que eu gosto em você

Gosto quando simplesmente paira seus olhos sobre mim e sorri tão bobo, enquanto tento não me sujar com o sanduíche em mãos. Quando parte do seu rosto está sob penumbra, olha fixamente para mim, enquanto pergunto “o que foi?”, e com um sorriso largo me responde “nada, apenas gosto de olhar para você”. É que seus olhos escuros parecem enxergar além de mim, como se capturassem cada fração do que eu guardo internamente, escondido e camuflado sob o meu batom vermelho.

Gosto de passar as mãos sobre sua barba, fazê-lo lembrar da sua infância. Gosto de senti-la passando suavemente sobre meu rosto, como dois felinos que se farejam numa noite fria e silenciosa. Gosto do seu beijo, que me chega como alento. É seu sabor, textura e temperatura. Me envolve e transborda, como água em ebulição. Saliva, língua e mordidas. É o encaixe perfeito. E se essa conversa de química existe mesmo; a nossa é, sem dúvidas, a orgânica.

Gosto quando consegue me ler, em todos os sentidos. De ter sua mão sobre a minha, enquanto faz carinho nela. Também acho incrível a forma em que surge quando mais preciso, quando o quarto em silêncio fica vazio demais e me sufoca. É quando seu abraço me acolhe e sua voz em tom sereno me tranquiliza, restituindo toda a minha calma.

Gosto de ouvir baixinho em meu ouvido o quanto valeu a pena ter me conhecido, enquanto penso comigo mesma o quanto estou feliz por ele ter surgido repentinamente em minha vida. Logo após, olho para o relógio, esperançosa para dar meia-noite e ser a primeira a deseja-lhe um feliz aniversário, sabendo eu que dessa vez quem ganhou o melhor presente foi eu.

Ayllane Fulco.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Sorriso torto


Ele faz o azul ficar celeste, faz do seu sorriso torto um motivo para o meu. Tem todas as explicações para o mundo, da física ao copo de leite. E suas teorias? Alastra minha comodidade, minha zona de conforto. Emana luz do que pensava ser treva. E faz da treva luz. Engenha diversas possibilidades, num passe de cálculo e mágica. Ele me investiga na forma mais sutil, explora o que há de forma mais amável. Busca-me em todos os lugares, palavras, cores e sons. Tem as mais belas palavras na ponta da língua, em quatro idiomas. O meu preferido é o finlandês. Tem todos os sons e sintonias, em semitons azuis. Faz de mim um laço num abraço. Restitui a minha alma com toda a calma que me faltava. E faz do dia, o mais vívido, e da noite a mais poética.
Ayllane Fulco.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Lixos-humanos

                De repente eu estava ali, frente a frente com um "lixo humano". Sim, lixo, cujos sinônimos: resto, sobra, sem utilidade. A única diferença é que este possui um coração no peito e um cérebro pensante. Fora isso, é tratado igualmente a qualquer outro objeto descartável, feito farinha do mesmo saco. Jogado e abandonado. Por mim, por você e pelo Estado. Vítima ou culpado? Essa é uma questão irrelevante. O fato é: é um ser humano.

                Esquecemos isso todas as vezes que nos colocamos no lugar das pessoas que sofreram algum dano cometido por eles. Nesse momento, o que sentimos? Repúdio, nojo e sentimento de vingança. E mais uma vez caímos na tendência de vê-lo pelo crime que cometeram e não pela sua existência física. Aquele se transforma em "aquilo". Uma coisa, um criminoso. Perde-se a identificação de ser humano, ao ponto de muitos pensarem "como assim, desejam ter seus direitos humanos respeitados?", como se isso não lhe coubessem. Mas afinal, são humanos também, não?! Lembrando-se, mais uma vez, a questão não é de vitima ou culpado. São direitos básicos de existência, e que não é porque a sociedade é miserável, economicamente falando, que os presídios devem refletir uma situação pior, ou seja, ter uma aparência mais suja e precária do que a vida fora de cela. Até por que, como exemplo, os presídios europeus, diferentemente do que muitos pensam, por serem países desenvolvidos, de “primeiro mundo”, acreditam que a realidade carcerária é outra, mas a verdade é que sofrem dos mesmos descasos estatais, como a superlotação, falta de higienização, entre outros tantos problemas.

                 Tal exemplo e situação revelam que o abandono aos presidiários, ou melhor, aos lixos humanos e sua instituição, é geral. É aqui e é na China. Como também é na Europa. São seres excluídos da sociedade. Nascidos com oportunidades de vida mínimas, jogados em jaulas e negado uma segunda chance. É uma negação implícita, claro. Valendo observar que, jogar um lixo na rua, em qualquer lugar, dificilmente será reciclado, é mais fácil gerar outros novos entulhos, aglomerados. Por que lugar de reciclagem não é na rua, e sim em um lugar específico para tal, que neste caso, deveria ser nos presídios, através de uma educação integrada, mas infelizmente as penitenciárias viraram uma instituição com fins de vingança, de pagar o mal com o mal, um descaso Estatal e judiciário. Só que o efeito é danoso, os punidos enxergam o Poder Judiciário como uma justiça puramente seletiva e elitista, e desconta na sociedade o que passaram dentro das celas.

                 Nesse momento, ao ler as últimas linhas, muitos devem estar pensando em como seria bom mantê-los então isolados até o fim de suas vidas, ou mais radicalmente, como seria mais fácil uma pena de morte. Menos um bandido. Menos um lixo. Mas não vamos tirar o foco novamente do fato, tentaremos ver o outro lado da moeda, nos colocar dessa vez na pele de quem está sendo punido. Vejamos que, se a própria sociedade olha esses seres com desprezo e desconfiança, feito monstros preste a atacar qualquer um, como é que os mesmos serão motivados a se socializarem se a própria sociedade os exclui? É muito fácil querer que uma planta se desenvolva, o difícil é ela crescer sem as condições básicas de existência, como sol e água. Então, como exigir que sejam cidadãos se nós sociedade os tratamos como lixos e não lhes é dado nenhum suporte de desenvolvimento?

                 É preciso uma motivação externa, tanto pela sociedade quanto pelo Estado, para que esses indivíduos se recuperem, pois unicamente enjaulá-los não abstrai o problema, apenas o deixa mais complexo. Portanto, cabe uma reforma carcerária, mas antes disso, uma reforma na mente social, e simultaneamente, uma visão mais ampla e menos elitista frente aos seus "lixos-humanos".

- Ayllane Fulco.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Lista Incompleta...

       Preciso colocar em minha cabeça que:

1-      Quem ama cuida.
2-      Quem tem interesse, corre atrás.
3-      Manter um relacionamento saudável é preciso saber se autoanalisar primeiro.
4-      Não procure desculpas para o que é óbvio, o que já está estampado na cara, como forma de não querer enxergar.
5-      Homens inseguros são covardes.
6-      Nunca ame mais alguém do que se é amada pelo mesmo.
7-      Não busque o que não é recíproco.
8-      Jamais mendigue atenção.
9-      No entanto, também seja compreensiva. Saiba ouvir.
10-   Goste de alguém que sinta prazer em conversar contigo. E que a conversa não seja entediante. Que flua espontaneamente, como se já se conhecem há anos.
11-   Quem espera, cansa. E o cansaço também pode ser libertador.
12-   Jamais se sinta satisfeita com um amor menor do que mereça.
13-   Cuidado com as pessoas que não perguntam sobre como foi seu dia, talvez elas não estejam interessadas em sua vida.
14-   Não insista em um erro.
15-   Não deixe que seu ego seja maior do que você.
16-   Mas não perca seu amor-próprio. O que não significa ser prepotente.
17-   Não deixe e nem envolva diretamente os outros em seus assuntos pessoais.
18-   Saiba dizer “não” para o que te incomoda.
19-   Também se arrisque, permita-se.
20-   Quem pensa muito se esquece de viver. Por isso, não se lastime tanto.
21-   Antes de reclamar por coisas irrelevantes, agradecer a Deus por tudo o que possui.
22-   Nem todos conseguem reconhecer pérolas.
23-   As pessoas são imprevisíveis, jamais subestimá-las.
24-   Confie desconfiando.
25-   Não aceite um erro com a velha desculpa de que “ele é homem...”.
26-   Homem também precisa ter caráter.
27-   Não busque no outro o que falta em você.
28-   Já nascemos completos, mas nos deixamos se perder pelo caminho. Se reconstrua.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Faça acontecer!


A questão é simples: Achamos sempre que ainda não estamos prontos. O tempo todo nos questionamos, e questionamos nossas capacidades. Por fim, esperamos por um outro amanhã, quando estivermos mais estabilizados, mais maduros, mais amados... Diferente de como estamos agora. Só que o problema todo não se passa por fora de nós, e sim por dentro. Em um conflito psicológico, em que nossas inseguranças estão sempre nos puxando para trás, dizendo em nossa mente que não estamos prontos para viver. Talvez por medo de sofrer algum dano, principalmente o emocional. E ficamos ali, esperando por algo que nunca chega. O sofá vai nos afundando cada vez mais. E em todo esse tempo, enquanto buscamos por uma tal mudança para se chegar à autoconfiança, dentro de nós nada muda, tudo fica intacto, e sabe porquê? Por que não nos permitimos viver, mudar, se transformar.  Ainda estamos esperando por alguma mudança externa. Como por um amor que bata à porta. Qualquer coisa que não precise do nosso esforço. Que simplesmente surja e que tenhamos a convicção que estamos prontos para enfrentar o mundo. Mas não é assim que a coisa funciona. Nesse tal espaço que nós vivemos chamado de mundo, é preciso se levantar do sofá primeiro, lavar o rosto, empurrar a maçaneta da porta e finalmente viver! Sem esperar por um impacto externo para que finalmente se possa mudar o interno. A regra simplesmente é inversa. A mudança primeiro surge de dentro para fora, e para que isso ocorra, requer um esforço de sua parte, como deixar de se questionar tanto, ou melhor, deixar de pensar tanto, de se martirizar tanto e de achar que nada vai dar certo. Pois quem pensa muito se esquece de viver. Portanto, viva! Reaja! E deixe de ficar sentado pensando no que poderia ser. Faça acontecer!
- Ayllane Fulco

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Aprendizado do dia


Engraçado como passamos tanto tempo do nosso dia esperando receber afeto de quem não nos dá. Mendigando atenção de uns, distribuindo “bom dia” por aí sem recebê-lo de volta. O mais engraçado de tudo isso é quando chega uma mensagem inesperada vindo de alguém inesperado, que nos toma de surpresa. É quando estamos tão agoniados, mergulhados numa tamanha carência ou no estresse do dia-a-dia, e quando de repente, ao acessar a sua caixa de e-mail, surge um “eu te amo”, de um amigo que há tempos não se falam. Nesse exato momento parece que tudo passa a fazer sentido e você se dá conta de como é especial para algumas pessoas. E aí, aquela sensação de crise existencial se evapora. Mais uma vez você reaprende que quem gosta de você, valoriza. E que mendigar a atenção de alguém já é a prova de que não lhe merece. Percebendo que os que a amam, mesmo com o passar dos dias, meses ou até anos, permanecem ali, vibrando com as suas conquistas, admirando-a e até mesmo orando por você, enquanto que as pessoas momentâneas que passam por nossas vidas, como já foi dito, são momentâneas. Por isso, não vale a pena se lastimar por aquilo que vai passar, pelo o que é efêmero. E por fim, vale levar como aprendizado, que é preciso distribuir “eu te amo” aos que sempre estiveram com você, aos que fazem de sua presença algo essencial e de sua ausência uma falta. Aos que lhe acolhem com um sorriso no rosto. Aos que lhe procuram nos momentos de angústia. Aos que você procura nesses mesmos momentos. E aos que você não precisa se esforçar para manter uma conversa, ela simplesmente flui naturalmente.
- Ayllane Fulco.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O que odeio em você

Não, não preciso de você. Não preciso dos seus olhos castanho-claros. Nem do seu sorriso bobo. Nem muito menos da sua fala arrastada, e nem do seu sotaque engraçado. E sabe de uma coisa? Eu detesto o tempo que te espero. Detesto sua falta de atenção. Seus dias ocupados. Os minutos que se passam até ler sua resposta curta. E mais ainda, detesto sua indecisão. O medo que sente de mim, de chegar e falar o que se quer e espera. Dizem que isso é de Gêmeos, mas não me importa mais o seu signo e nem o que os astros dizem de você! Eu agora é que quero falar e expor por mais uma vez o que eu odeio em você. Odeio a forma que me deixa vulnerável, quando eu prometi a mim mesma que jamais seria assim, uma “mulherzinha apaixonada”. Odeio sentir que falta um pedaço meu por aí, e ter a convicção de que sou incompleta. Odeio todas as vezes em que supões que sou frágil demais, intensa demais, sentimental demais. Ah, e também odeio seus erros de português! Isso deixa meus nervos à flor da pele. E sem falar do seu sono incontrolável, tendo que se despedir de mim tão rapidamente. Das suas faltas de explicações, de ter que ouvir um “desculpa” mais chulo. Odeio quando depois que reclamo de tudo isso, sei exatamente o que passa em sua cabeça “as mulheres são sentimentais demais” ou pior “ela deve estar na TPM”. Por que é que você, como todos os homens, ignoram tudo o que dizemos, principalmente a parte do “a culpa é sua”, e feito chá de sumiço cerebral, nós é que passamos a ser as chatas, sensíveis, descontroladas por “razão nenhuma”?! Ora, ora... E por fim, sabe o que é pior de tudo isso?! Ter que admitir a mim mesma que me importo com você. Até mais do que eu queria.
- Ayllane Fulco

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Vazio


           Tão cheia de espaço e de abraço. Em um lugar habitual, familiar, com conhecidos. Mas o espaço continua em aberto, um vazio que fica no estômago, talvez. Não, não é a fome. Está escancarado para quem quiser olhar, feito difundo numa sala de anatomia. Sentindo-me ser analisado de perto, como se estudassem o meu cadáver. Viram e me desviram, colocam-me até de cabeça para baixo, mas de nenhuma forma o vazio se esconde. Colocam até uma bata branca sobre ele, mas ele continua ali, só que dessa vez não escancarado como antes. Mas continua, entende?
            E todos fingem que não o notam mais, talvez para fazer com que eu mesma esqueça-se dele. Às vezes dá certo, mas depois que toco em minha barriga, ele continua ali, parece até que vai se expandir, sair pela garganta feito um vômito. Sinto, por vezes, o gosto da saliva misturada com seu conteúdo amargo, reluto contra a ânsia.
            Quando já não aguento mais, o vazio revira minhas tripas, soca meu estômago, e impulsivamente o expulso de dentro de mim. Como estou fazendo agora com essas palavras. Mas uma verdade é: todo vômito traz consigo o alívio.
 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Dança


         Saudades do seu sorriso que estava tão próximo do meu, dos seus olhos castanho-claros refletindo as luzes coloridas, da forma pela qual me fazia sorrir. Era tão engraçado o meu jeito atrapalhado, tentando imitar seus passos, que o fazia sorrir da minha confusão e dizer com tanta leveza que eu estava indo bem, só para não me deixar mais sem graça. E ainda insistir no meu jeito atrapalhado, pois ambos sabíamos de como eu era desengonçada, mas ainda assim não largava a minha mão. Às vezes me pergunto por que é que continuei nessa desastrosa tentativa de dançar, mas no fundo eu sabia que valeria a pena, e já estava valendo, pois o que importava para mim, naquele momento, era senti-lo próximo, de uma forma que eu não sei muito bem explicar, todas às vezes crio uma nova explicação. Mesmo só o conhecendo de vista, o que torna tudo isso uma história muito boba e inocente (o pior é que sei de tudo isso), algo não me deixava soltar sua mão, que a mantinha como válvula de escape à minha vergonha, em cada erro a prendia com mais força, como se estivesse preste a explodir. Sempre pensei que para me fazer dançar fosse necessário muita bebida alcóolica para quiçá eu tivesse coragem, mas naquela noite não sei o que diacho me fez vencer a timidez, com certeza era algo mais forte do que vodka pura, mesmo sem ter um pingo de álcool em meu sangue. E o que aconteceu? Nada, ficamos apenas dançando de uma forma engraçada, até ele ir embora. E agora fico me perguntando o porquê que estou assim, tão confusa, talvez eu seja idealista demais, me prenda a pequenos detalhes que ninguém nem os perceba. E talvez ele nem tenha percebido todos esses detalhes numa dança. E mais um talvez: talvez eu estivesse certa quando disse que iria acabar desistindo de me ensinar a dançar. E naquela noite, ele acabou desistindo de mim também.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Hipermetropia

       Desculpa por reclamar de falta de amor sabendo que me amava, e por todas as vezes em que me senti tão sozinha enquanto segurava a minha mão. Desculpa pelas vezes em que sorria alegremente para mim e eu tão insensivelmente lamentava por todas as minhas desgraças. E pelas vezes em que não o vi tão perto, questão de centímetros. Por ter deixado você partir, mesmo sem ter notado sua despedida, suas malas prontas, com o guarda-roupa já vazio. Por não ter dito "até logo" ou "apareça sempre". Desculpa por não ter visto aquela lágrima que caia de seus olhos todas as vezes em que eu fui arrogante com todos, principalmente com você. Peço perdão pela falta de sentir falta, é que meu coração é lento demais com as emoções, um sistema falho em processo. Desculpa pelas vezes em que me ausentei. Pelas indiretas tão diretas. Pelo egoísmo espontâneo. Por todas as desculpas. E principalmente, peço perdão pela minha hipermetropia, é que tenho dificuldades de enxergar de perto, tive que deixá-lo se afastar para que só assim eu pudesse vê-lo, a quilômetros de distância de mim.
- Ayllane Fulco

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O amor, a vodka

 
 

      O amor me aparecia com gosto de azedume, com cara de ressaca. Descia rasgando pela garganta, como quem engole vodka pura. Delirante e viciante, de quem bebe para fugir da realidade. Mas depois que os efeitos passam com o tic-tac do relógio, o corpo já se esfria, o alcóol se esvaz e me deixa ver com mais lucidez. É quando a bendita da ressaca surge feito um soco no estômago, me fazendo lembrar de que não adianta beber ou fugir da realidade em que me encontro. - Essa era a minha visão do amor, uma caneca cheia de vodka. Ou melhor, várias.
         Questionei-me por vezes onde é que o meu tal romantismo fora parar, atirou-se de mim enquanto eu fechava os olhos. Veloz feito um ladrão. Pôs-se o corpo fora, deixando apenas a velha lembrança de que um dia existiu em mim. Mas afinal, quando foi que partiu? Quando foi que fiquei despida, sem véu e grinalda?
         Entrei numa rua escura, onde de esquina encontrava-se um bar, coloquei-me frente-a-frente com um velho conhecido meu, olho para ele, cara-a-cara, olhos-nos-olhos, desafiando sua cara de inocente. Pensa que me engana. Sua cor transparente, sua textura de água, mas seu conteúdo era mais traçoeiro. Muitos poderiam olhar para ele e dizer: é apenas um cara neutro feito água, ou, é um cara tão essencial feito água. Mas ambos estavam enganados. E se querem saber seu nome, eu o digo, mas só dessa vez, para fazer-lhes relembrar, seu nome é vodka, conhecido por mim como amor. Ou será que é amor, conhecido por mim como vodka?
         Bem, talvez eu esteja já bêbada neste momento ou esse seja o meu eu "sóbrio". Mas agora isso já nem importa mais. O que importa é que já decidi que dessa vez não terá volta, ou viro alcóolatra de vez ou largo a droga da bebida. Ficar nessa de sóbrio durante a semana e bêbada nos fins de semana está me deixando ambígua demais. Nem eu me aguento nesses momentos de ser ou não ser. - Que eu morra de amor, ou que eu o mate de vez.
- Ayllane Fulco

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

As pessoas são livres!

As pessoas são livres. Isso é fato, está concretizado e até mesmo positivado. Mas por que é que vivemos sempre presos a algo ou alguém? A partir do momento que essa verdade fizer presente no seu ser, o medo não fará mais sentido, por que a liberdade é o oposto do medo. As pessoas têm medo de ficar sozinhas. As pessoas têm medo de quebrar as algemas. As pessoas têm medo da liberdade, de ser e deixar ser. Medo... Até quando será o senhor dos homens e das mulheres? Se todo mundo soubesse que ser livre e deixar ser, é fundamental para um amor saudável, as pessoas sofreriam menos. O que é preciso saber e deixar claro em mente, é que as pessoas são livres, nascem sozinhas, caminham com os próprios pés e não deixam de existir por quê estão sozinhas. Prender alguém em si, por medo da solidão, é egoísmo, longe de amor. E o mais importante, a liberdade consiste no indivíduo está no mundo, sujeito às mudanças externas e internas, ninguém é constante, inalterável. E isso também é liberdade. Culpar-se ou culpar o outro, por amor ou desamor, é pura ingenuidade ou forma de pretensão, pois mais uma vez a palavra liberdade é evidente num contexto social, já que as pessoas são livres e seus sentimentos também. Ninguém nasce preso ao outro e nem deve ser sacrificado à eternidade pela força do hábito ou comodismo, e nem muito menos pelo medo. Isso de alma gêmea, a metade da laranja, não deve se servir de desculpa para o sofrimento e busca incansável pelo amor perfeito e solidificado. Ninguém deve carregar aos ombros o peso de um amor idealizado. No fim de tudo, ou você se liberta de suas algemas ou alguém aparece e o aprisiona por completo.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Ambos no velório


      Morreu. De morte morrida ou de morte matada? Eu ainda não sei. Vai ver que foi morte morrida mesmo, mas ambos teimam a acreditar, cada um culpando o outro de assassinato. Mas o fato foi dado: Morreu. E a sentença? É aceitar. Sim, aceitar e sem questionar. Esse foi o acordo daquele dia, ambas as partes concordaram, mas também se um não concordasse, não teria mudança alguma. Estaria morto de qualquer jeito. Por que era preciso ser em par. Eu sei, é triste ver a morte de alguém que era tão próximo, vendo-o dentro do túmulo que se fecha diante dos próprios olhos, e o que se pode fazer?! Nada... O corpo se inclina, as lágrimas caem, o gosto amargo fica pairando na boca, enquanto você se despede pela última vez. E lá se foi um ente próximo, que fez-se distante. E por lá, enterrado ficou, talvez fosse um filho ou apenas um animal de estimação. Mas ambos sabiam de sua morte, ambos estavam cientes disso. Ambos arcaram com o custo do velório e com todos os "pêsames", e insensivelmente também tiveram de ouvir "já estava na hora". Mas o fato é: estava sendo enterrado, o que já estava morto. Depois das despedidas, ambos deram as costas um para o outro, seguiram em caminhos opostos. E com o tempo, ambos esqueceram a perda.
- Ayllane Fulco

domingo, 3 de novembro de 2013

Ausência concreta

       Sabe o que é ter vontade de algo e não saber ao certo o que é? Ou melhor, ter a intuição de que falta algo. Ter a sensação permanente de ausência concreta. Ter e não ter. Ausência com contragosto de excesso. Loucura?! Talvez. Sabe o que é precisar sentir ausência? É que a harmonia enjoa. Uma hora ou outra, cansa. Sentir-se completo é desumano. É metafísico demais. Então fico aqui com minhas faltas e excessos, perfeita desarmonia humana. Com gosto de nada, de falta, de ausência.
-Ayllane Fulco

sábado, 2 de novembro de 2013

Menos amor, por favor!



     Sabe o que me incomoda? Não é sua declaração de amor eterno, nem sua foto de casal apaixonado, e nem sua cara de quem está absurdamente feliz. O que me incomoda é saber que são só palavras, que as promessas fazem parte da história de "faz de conta..." E que o "eterno" dura poucos dias. O que me incomoda é que amor se tornou tão passageiro, frágil e tão líquido como afirma Bauman. O que me incomoda são as "promessas" mais sem credibilidade que já ouvi e que ninguém acredita, nem mesmo quem as falou.
      E o pior de tudo, é quando confirmo que estou certa. Quando vejo o mais novo "amor eterno" da vez e ter que ouvir que também não conseguirá viver sem esse novo amor, como também não conseguia viver sem o outro, o do passado. Incrível como as pessoas conseguem morrer e viver tantas vezes numa só vida, não?!
      Eu peço "menos amor, por favor"! E mais realidade, meu caro!

sábado, 19 de outubro de 2013

Empatia


     Sabe quando alguém tem empatia por você? Quando alguém consegue captar o seu mundo subjetivo, entrar em contato com o que está intrínseco? Pois bem, certos olhares parecem me compreender melhor do que eu mesma, é como se conseguisse atravessar uma janela imaginária, um portal que fica na íris dos olhos, dizem que é a janela da alma. Talvez seja mesmo. Mas poucos conseguem atravessa-la.
    O que é mais incrível é que meu cachorro, certas vezes, parece ter empatia por mim, parece saber exatamente o que passa em meus pensamentos. Até sua forma de inclinar a cabeça, franzir a sobrancelha, como se estivesse perguntando "ei, você está bem?". Eu sei que parece coisa de outro mundo, um cachorro ter contato tão intenso com o ser humano. Mas talvez seja mesmo, talvez eles consigam enxergar melhor do que nós, o que está além de nossa pupila tão limitada. E o mais engraçado disso tudo é que os humanos, tão racionais e espertos, não conseguem nem ler o que está estampado na cara, imagina só o que está por dentro dos olhos! Mais que ironia!
      E sabe o que tirar disso tudo? Só se apaixone por alguém que consegue ter empatia por você, mais do que o seu próprio cachorro!